Por Paulo Nascimento | 08.08.2026
Tanto a gastronomia como a moda sempre estiveram entrelaçadas de certa forma sendo essenciais em nosso cotidiano, elas contam histórias, mostram de onde somos e quem somos. Para a estilista Joana de Paula, fundadora do Jô de Paula Ateliê, em Fortaleza, Ceará, esses dois universos caminham lado a lado e se encontram na sua cultura, que por sinal, no Brasil é o que temos de mais precioso e diverso.
“A gastronomia e a moda se cruzam porque falam das nossas raízes, dos nossos costumes e de quem nós somos”, resume Joana. Para ela, tanto uma receita quanto uma peça de roupa carregam memórias, afetos e a capacidade de conectar passado, presente e futuro.

Essa relação ficou evidente em uma de suas coleções mais marcantes. Inspirada no livro Não Me Deixes: Suas Histórias e Sua Cozinha, de Rachel de Queiroz, Joana transformou lembranças de infância, almoços em família e receitas afetivas em desenhos bordados sobre tecidos, criando uma coleção que une literatura, culinária e artesanato.
Segundo ela, a inspiração nasceu das próprias memórias familiares. As comidas preparadas por parentes, os encontros em volta da mesa e os sabores da infância ganharam uma nova linguagem por meio da moda, mostrando que vestir também pode ser uma forma de contar histórias.

A criatividade nasce da cultura
Há mais de duas décadas vivendo no Nordeste, Joana encontrou no artesanato um propósito para sua criação. Desde então, passou a trabalhar em parceria com artesãs, valorizando técnicas tradicionais e o trabalho manual como parte essencial de sua identidade criativa.
Ela acredita que moda não é apenas roupa, mas uma linguagem que dialoga diretamente com a sociedade, assim como acontece com a alimentação. Mudanças históricas, imigrações, escassez de alimentos e transformações culturais influenciam tanto aquilo que vestimos quanto aquilo que colocamos no prato.
Essa percepção faz com que a estilista enxergue a culinária brasileira como uma fonte inesgotável de inspiração. Os mercados, as frutas regionais, os pescados, os temperos e a diversidade gastronômica do país alimentam sua criatividade da mesma forma que influenciam a identidade nacional.

“Quando você vai a um mercado de peixes, observa os camarões, as ostras, a lagosta, ou experimenta sabores diferentes de cada região, tudo isso acaba inspirando. A culinária é cultura”, afirma.
Valorizar o que é nosso
Para Joana, o grande diferencial do Brasil está justamente na riqueza cultural construída pela influência indígena, africana, europeia e pelas diversas tradições regionais. Essa mistura faz da criatividade brasileira algo único e reconhecido internacionalmente.
Ela cita como exemplo a pintora mexicana Frida Kahlo, que também utilizava a culinária como expressão cultural ao receber artistas e intelectuais em sua casa. Para a estilista, cozinhar, vestir-se e produzir artesanato são formas de afirmar uma identidade.
“A gente afirma nossa cultura quando valoriza nossa culinária, nosso artesanato e nossas manifestações populares”, destaca.
Um conselho para as novas gerações
Ao falar com jovens criadores, Joana incentiva que a inspiração não venha apenas das tendências ou das redes sociais, mas principalmente da própria trajetória de vida.
Ela acredita que um trabalho autoral nasce do olhar para dentro, das experiências pessoais e da conexão com as próprias raízes. Só assim é possível criar algo verdadeiro, coerente e capaz de representar quem somos.
“Quando a gente olha com verdade para nossa tradição, conseguimos criar algo original e com identidade”, conclui.
No fim das contas, a moda e a gastronomia são memórias e conexões. Ambas preservam histórias, fortalecem identidades e mostram que cultura também pode ser saboreada, Joana me mostrou como a moda se inspira no mundo e nas vivências dos estilistas como um todo, e aquele que presta atenção ao seu redor, buscar repertório na vida, cria-se um olhar apurado para a arte, como por exemplo, ver inspiração na gastronomia, uma arte tão antiga e cotidiana que poucos param e pensam de onde veio aquele tempero, qual cultura criou aquele prato e como é essa cultura. Assim, gastronomia se torna repertório, criatividade e moda.

