Jampa Gastronomia

Um ano da primeira revista de jornalismo gastronômico paraibana

A João Pessoa que se come: memória, território e identidade à mesa

Por Chef Marco Nascimento

João Pessoa não é uma cidade que se conhece apenas caminhando por suas ruas, contemplando o mar ou observando o movimento de suas praças. Há outra maneira de percorrê-la: pelo paladar. É à mesa que muitas vezes encontramos aquilo que os mapas não conseguem registrar as lembranças de uma família, os saberes transmitidos entre gerações, os ingredientes de um território e as histórias de pessoas que transformaram a cozinha em uma forma de preservar quem somos. Comer João Pessoa é, portanto, mais do que alimentar-se. É experimentar uma cidade construída também por seus sabores.

A gastronomia pessoense nasce desse encontro entre territórios, culturas e tempos. O litoral oferece peixes, crustáceos e outros frutos do mar; o interior paraibano chega à capital pelas feiras, mercados, cozinhas familiares e restaurantes; as tradições indígenas, africanas e europeias atravessam receitas, técnicas e modos de preparar e compartilhar os alimentos. Nada disso permanece completamente parado. A cozinha se transforma à medida que a própria cidade muda, mas carrega consigo marcas de um passado que insiste em permanecer presente.

Basta observar uma feira para compreender que gastronomia também é território. Nas bancas, frutas, raízes, temperos, pescados e ingredientes regionais revelam uma Paraíba que chega diariamente à capital. O alimento percorre caminhos antes de chegar ao prato. Há quem plante, pesque, colha, transporte, venda, cozinhe e sirva. Por trás de uma preparação aparentemente simples existe uma cadeia de conhecimentos e trabalhos que raramente aparece quando falamos apenas do prato pronto.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores riquezas da gastronomia de João Pessoa: nas pessoas. A cozinheira que aprendeu determinada receita observando a mãe. O feirante que conhece pelo nome quem compra seus produtos há décadas. O pescador que sabe interpretar o movimento das águas. A mulher que mantém viva uma preparação familiar. O cozinheiro que transforma ingredientes tradicionais em uma criação contemporânea. São esses personagens que dão voz à gastronomia e impedem que ela seja reduzida a uma lista de pratos.

A memória alimentar também possui uma dimensão afetiva. Quem nunca associou determinado cheiro à casa dos avós? Quem nunca reconheceu uma pessoa por meio de uma receita? Existem pratos que não alimentam apenas o corpo: alimentam lembranças. Uma comida preparada em uma panela antiga, um tempero colocado “a olho”, uma receita sem medidas escritas em papel tudo isso constitui um patrimônio silencioso, transmitido pela oralidade e pela experiência cotidiana.

Mas preservar não significa congelar a gastronomia no tempo. Uma cozinha viva precisa ter espaço para transformação. João Pessoa contemporânea apresenta novos restaurantes, chefs, técnicas e interpretações dos ingredientes paraibanos. O desafio está em fazer essa renovação dialogar com aquilo que já existia antes. Modernizar uma receita não deveria significar apagar sua origem. Pelo contrário: conhecer a história de um ingrediente ou de uma preparação pode ser justamente o ponto de partida para reinventá-la com respeito.

Há, ainda, uma pergunta que merece ser feita: quem tem sua comida reconhecida como patrimônio e quem continua invisível? Valorizar a gastronomia significa também olhar para os pequenos produtores, cozinheiras, vendedores de rua, trabalhadores das feiras, pescadores, agricultores e tantos outros sujeitos que sustentam diariamente a cultura alimentar. Uma gastronomia verdadeiramente representativa não pode ser construída somente nos espaços mais sofisticados. Ela também está na cozinha doméstica, na feira, no mercado, na calçada e nas mãos de quem aprendeu a cozinhar muito antes de transformar esse saber em profissão.

João Pessoa vive um momento em que sua gastronomia pode assumir um papel ainda mais significativo na valorização de sua identidade. O turismo gastronômico, a economia criativa e a valorização dos ingredientes locais oferecem oportunidades, mas também impõem responsabilidade. Não basta transformar a cultura alimentar em produto. É necessário reconhecer suas origens, seus protagonistas e os conhecimentos que permitiram que determinados sabores chegassem até nós.

No fim das contas, talvez a melhor maneira de compreender João Pessoa seja sentar-se à mesa e prestar atenção. Escutar quem cozinha. Perguntar de onde veio aquele ingrediente. Descobrir quem ensinou aquela receita. Conhecer a história escondida atrás de uma preparação. Porque uma cidade também se revela naquilo que escolhe preservar, celebrar e colocar no prato.

João Pessoa não é apenas uma cidade para ser visitada. É uma cidade para ser sentida e, sobretudo, saboreada. Em cada prato existe um pedaço de território; em cada receita, uma lembrança; em cada cozinheiro, uma história. E quando memória, território e identidade encontram lugar à mesa, a gastronomia deixa de ser apenas comida. Torna-se narrativa. Torna-se patrimônio. Torna-se a própria cidade contando, por meio dos sabores, quem é e quem deseja continuar sendo.

Coluna por Chef Marco Nascimento:

Gastrólogo e docente universitário, natural de Cacoal (RO), é bacharel em Gastronomia e possui formação em Cozinheiro Chef Internacional e Pâtissier pela UNIVALI (2018). É especialista em Didática do Ensino Superior (2019) e em Nutrição, Alimentação Saudável e Empreendedorismo pela PUC-RS (2022). Atua desde 2018 como professor e consultor na área de Alimentos e Bebidas (A&B), acumulando experiência na orientação e avaliação de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs), além da organização de eventos acadêmicos. Desde 2024, reside em João Pessoa (PB), onde leciona na UNINASSAU e cursa Biomedicina na Unipê.