Jampa Gastronomia

Um ano da primeira revista de jornalismo gastronômico paraibana

SEPULTANDO O CASAMENTO: Até que a morte nos separe.

Por Polly Rocha

Talvez esteja chegando ao fim a festa perfeita para o melhor amigo do pai, para a tia, para o vizinho, para o convidado que ninguém conhece e quase nunca para os noivos.

Durante muito tempo, casamento no Brasil foi sinônimo de listas intermináveis, centenas de convidados, pratos escolhidos para agradar a família e uma decoração pensada para provar ao mundo que aquele casal havia chegado lá.

Quanto maior a festa, maior o status.
Quanto mais exuberante a decoração, maior a promessa de felicidade.
Quanto mais gente olhando, mais legítimo parecia o amor.

Até que uma nova geração resolveu quebrar a vitrine da tradição e transformar tudo em uma prateleira de afeto.

Em uma época em que vivemos de performance no feed, nos stories e na vida, talvez a maior rebeldia seja justamente parar de performar.

Menos convidados.
Mais escolhidos.
Menos poses.
Mais presença.
Menos obrigação.
Mais verdade.

O sepultamento do filé Wellington.
E o nascimento da batata frita ,justamente a comida favorita da noiva, transformada em prato inédito, afetivo e cheio de memória.

Porque, afinal, o que vão pensar de nós?

Talvez pensem que a comida que faz os noivos felizes não seja a mesma que agradaria 600 convidados.

E tudo bem.

A música não foi a grande orquestra de baile.

Foi o trio de pé de serra.

Aquele som que estava tocando quando eles dançaram juntos pela primeira vez.

E é aí que o casamento deixa de ser apenas um rito e passa a ser uma história.

Uma história com cheiro, sabor, música, memória, gargalhada, lágrima e identidade.

Uma festa que não precisa provar nada para ninguém.

Talvez essa geração não esteja destruindo a festa de casamento.

Talvez esteja devolvendo a festa aos seus verdadeiros donos.

Porque casamento não deveria ser sobre pertencer.
Deveria ser sobre reconhecer.

Reconhecer quem se ama.
Quem esteve junto.
O que faz sentido.
O que tem memória.
O que tem verdade.

No fim, talvez seja isso que fique quando as flores murcharem, as luzes se apagarem e as fotos forem guardadas:

uma festa que tinha a cara dos dois.

Porque festa boa não precisa ser a maior.

Precisa ter cara, nome, história, sorrisos e afeto.

E se for para sepultar alguma coisa, que seja a obrigação de agradar todo mundo.

Coluna por Polly Rocha: