Por Chef Marco Nascimento | 04.08.2026
Há destinos que conquistam pela paisagem. Outros, pela arquitetura. A Paraíba consegue reunir tudo isso e ainda oferecer um privilégio raro: contar sua história por meio dos sabores. Em cada cidade, uma receita. Em cada engenho, uma tradição. Em cada pequena propriedade rural, uma família que transforma ingredientes em patrimônio cultural.
Muito antes de os pratos chegarem às mesas dos restaurantes, existe um elo silencioso que sustenta a identidade gastronômica paraibana: os artesãos. São agricultores, queijeiros, mestres alambiqueiros, doceiras, cafeicultores, apicultores e pequenos produtores que preservam saberes transmitidos por gerações e fazem da gastronomia um dos maiores atrativos turísticos do estado.
Conhecer a Paraíba é, antes de tudo, conhecer essas pessoas.
A viagem começa por João Pessoa, porta de entrada para um dos estados mais autênticos do Brasil. A capital, reconhecida por suas praias, seu patrimônio histórico e sua qualidade de vida, vive um momento especial na gastronomia. Restaurantes, bistrôs, cafeterias e cozinhas autorais têm voltado seus olhares para os ingredientes produzidos no interior do estado, aproximando o visitante da verdadeira essência paraibana. Nas mesas da cidade chegam cafés especiais cultivados nas montanhas do Brejo, queijos maturados produzidos em pequenas fazendas, cachaças premiadas envelhecidas em barris de madeira nobre, mel do Sertão, doces artesanais, frutas tropicais e pescados frescos do litoral. João Pessoa tornou-se uma vitrine da produção regional, onde tradição e alta gastronomia caminham lado a lado.


Seguindo rumo ao Brejo Paraibano, surge Areia, uma das cidades históricas mais encantadoras do Nordeste. Suas ruas de pedra, casarões coloniais e clima serrano acolhem visitantes que buscam experiências autênticas. É aqui que vivem alguns dos mais tradicionais engenhos do Brasil. A produção artesanal de cachaça transformou Areia em referência nacional, unindo história, tecnologia e excelência. Cada garrafa carrega o aroma da cana cultivada na região, o conhecimento transmitido entre gerações e um cuidado que faz dessas bebidas verdadeiras joias da gastronomia brasileira.Mas Areia também surpreende pelos cafés especiais produzidos em altitude, pelos doces cristalizados, rapaduras, biscoitos tradicionais, licores artesanais e pela culinária regional que encontra no inhame, na macaxeira, na carne de sol e nos ingredientes da agricultura familiar uma identidade única.

Poucos quilômetros adiante, Bananeiras encanta pela elegância de seu casario, pelo clima europeu em pleno Nordeste e pela força de sua gastronomia rural. A cidade tornou-se referência na produção de queijos artesanais de alta qualidade, manteigas, embutidos, geleias, cafés especiais, vinhos artesanais e produtos da agricultura familiar. Cada fazenda aberta à visitação permite que o turista acompanhe o processo produtivo, deguste alimentos recém-preparados e compre diretamente de quem produz. Bananeiras prova que o turismo de experiência é capaz de gerar desenvolvimento econômico sem abrir mão da tradição.

Em Pilões, conhecida por suas paisagens verdes e pela agricultura familiar, a banana tornou-se símbolo da economia local. Dela surgem doces, bolos, chips, compotas e diversas receitas que surpreendem pela criatividade. Os engenhos familiares preservam a fabricação artesanal da rapadura e da moagem da cana, enquanto pequenos produtores oferecem mel, biscoitos caseiros e derivados da mandioca, transformando a cidade em um convite para quem busca sabores genuínos.


Já Alagoa Nova vem conquistando espaço no cenário nacional com seus cafés especiais cultivados em áreas de altitude. O terroir privilegiado produz grãos de alta qualidade, cada vez mais valorizados por baristas e apreciadores do café brasileiro. As cafeterias e propriedades rurais oferecem degustações, visitas guiadas e experiências que aproximam o consumidor da origem de cada xícara.
Em Alagoa Grande, tradição e cultura caminham juntas. Além dos históricos engenhos de cachaça, a cidade preserva uma rica produção de doces, licores, compotas e derivados da cana-de-açúcar, mantendo viva uma herança que atravessa gerações.

No Cariri Paraibano, Cabaceiras surpreende por transformar as condições do semiárido em oportunidade. Reconhecida nacionalmente pela caprinocultura, a cidade produz alguns dos melhores queijos de leite de cabra do Nordeste, além de iogurtes, doces, embutidos e pratos que revelam toda a versatilidade dessa cadeia produtiva. Ali, a gastronomia se une ao turismo rural, ao artesanato em couro e às paisagens cinematográficas, formando um dos roteiros mais autênticos da Paraíba.


Mais ao interior, o Sertão Paraibano revela uma riqueza pouco conhecida pelos visitantes. Em cidades como Sousa, destacam-se os produtos da apicultura, os queijos artesanais, as carnes de tradição sertaneja e os doces feitos com frutas nativas. Já Pombal preserva receitas familiares que atravessam gerações, mantendo viva a culinária típica do semiárido. Esses destinos mostram que a força da gastronomia paraibana não está apenas nos restaurantes, mas principalmente nas pequenas propriedades, nos engenhos, nas queijarias, nos cafezais, nas casas de farinha e nas cozinhas onde o conhecimento continua sendo passado de pais para filhos.
O turismo contemporâneo busca autenticidade. O viajante deseja conhecer quem produz, caminhar pelos cafezais, visitar um engenho centenário, acompanhar a fabricação de um queijo artesanal, provar uma cachaça envelhecida, colher frutas diretamente do pomar e ouvir histórias contadas por quem faz da gastronomia um modo de vida. A Paraíba reúne tudo isso em um roteiro que conecta litoral, serra, agreste, cariri e sertão, revelando um estado onde cada cidade possui um sabor próprio e cada sabor guarda uma história. Valorizar esses artesãos é preservar muito mais do que receitas. É fortalecer a economia local, incentivar o turismo sustentável, gerar oportunidades para as novas gerações e proteger um patrimônio imaterial que distingue a Paraíba no cenário brasileiro.
Ao visitar esses destinos, o turista não leva para casa apenas uma garrafa de cachaça, um queijo premiado, um pacote de café especial ou um doce artesanal. Leva consigo a memória de encontros verdadeiros, de paisagens inesquecíveis e da hospitalidade de um povo que transformou sua cultura alimentar em um dos maiores patrimônios do estado. Porque, na Paraíba, a gastronomia não é apenas um atrativo turístico. É uma expressão de identidade. E são as mãos de seus artesãos que continuam alimentando essa memória, fazendo de cada viagem uma experiência que permanece muito além do último sabor.
Coluna por Chef Marco Nascimento

Gastrólogo e docente universitário, natural de Cacoal (RO), é bacharel em Gastronomia e possui formação em Cozinheiro Chef Internacional e Pâtissier pela UNIVALI (2018). É especialista em Didática do Ensino Superior (2019) e em Nutrição, Alimentação Saudável e Empreendedorismo pela PUC-RS (2022). Atua desde 2018 como professor e consultor na área de Alimentos e Bebidas (A&B), acumulando experiência na orientação e avaliação de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs), além da organização de eventos acadêmicos. Desde 2024, reside em João Pessoa (PB), onde leciona na UNINASSAU e cursa Biomedicina no Unipê.

