Na capital paraibana, a gastronomia revela uma cidade que também se constrói pelo conhecimento de suas cozinhas, pela transmissão de seus saberes e pela presença viva das matrizes africanas em sua identidade cultural. O visitante fotografa e outra que ele talvez só consiga compreender quando se senta à mesa. A primeira está nas paisagens, no patrimônio, no litoral e nas ruas que fazem da capital paraibana uma das cidades mais singulares do Nordeste.

A segunda está nos gestos que antecedem o prato: na escolha de um ingrediente, no conhecimento de uma técnica, na memória de quem ensina, na maneira de preparar e na decisão de continuar transmitindo aquilo que foi aprendido. É nessa segunda João Pessoa que a gastronomia de matrizes africanas revela sua dimensão mais profunda. Não se trata apenas de comer, mas de reconhecer que uma cidade também constrói sua identidade através dos saberes que preserva.

Quando observo João Pessoa pela perspectiva da gastronomia, percebo que o prato nunca chega sozinho. Com ele chegam histórias, territórios, pessoas e conhecimentos. A cozinha é uma espécie de mapa afetivo da cidade, capaz de conectar diferentes gerações e referências culturais. Nesse mapa, os saberes de matrizes africanas ocupam um lugar que merece ser reconhecido pela sua contribuição para a diversidade gastronômica pessoense. Eles estão relacionados a modos de preparar, utilizar e compartilhar alimentos, mas também a formas de ensinar, celebrar e estabelecer vínculos entre comunidade, cultura e território.
O que torna essa presença especialmente valiosa é a dimensão do saber. Há conhecimentos culinários que não nasceram em livros de receitas e que tampouco dependem deles para continuar existindo. São ensinados pela convivência, pela observação, pela experiência e pela oralidade. Uma mão ensina outra mão; um olhar atento aprende um movimento; uma geração entrega à seguinte aquilo que recebeu. Em João Pessoa, esse processo transforma cozinhas e espaços de convivência em lugares de transmissão cultural. A gastronomia, nesse sentido, deixa de ser somente uma prática alimentar e passa a funcionar como uma linguagem através da qual a memória continua falando.

A ancestralidade aparece justamente nessa continuidade. Ela não precisa ser procurada apenas no passado, porque permanece presente quando um conhecimento é praticado novamente. Uma técnica que continua sendo utilizada, um ingrediente que permanece significativo, uma preparação compartilhada ou uma tradição que encontra novas gerações demonstram que ancestralidade também é movimento. Em João Pessoa, os saberes de matrizes africanas participam dessa dinâmica e dialogam com outras referências culturais que formam a gastronomia paraibana. O resultado não é uma cozinha parada no tempo, mas uma cultura alimentar capaz de preservar suas raízes enquanto acompanha as transformações da cidade.


Há, ainda, uma dimensão que exige cuidado e respeito: a relação entre alimento e religiosidade. Nas tradições religiosas de matrizes africanas, a comida pode possuir significados próprios e integrar práticas e celebrações específicas. Para o jornalismo gastronômico, compreender essa relação é fundamental, mas compreendê-la não significa transformar o sagrado em espetáculo. Significa reconhecer que existem conhecimentos pertencentes às comunidades e que cabe a elas definir como suas tradições devem ser apresentadas. A gastronomia pode aproximar o público da cultura quando é conduzida pela escuta; torna-se inadequada quando transforma aquilo que possui significado profundo em simples curiosidade.
É nesse ponto que a comida encontra o patrimônio. Costumamos pensar em patrimônio quando falamos de prédios, monumentos, documentos ou lugares reconhecidos oficialmente. Mas uma cidade também guarda patrimônio nas práticas que seus habitantes aprendem e preservam. O conhecimento sobre um alimento, uma técnica culinária, uma forma de preparar ou uma maneira de compartilhar pode carregar valores culturais que atravessam gerações. Reconhecer os saberes de matrizes africanas dentro dessa perspectiva amplia a própria ideia de patrimônio de João Pessoa e permite compreender que parte da história da cidade também está guardada em suas cozinhas e nas pessoas que sabem fazê-la acontecer.

A identidade gastronômica pessoense se torna mais completa quando essas diferentes histórias podem ser reconhecidas em sua pluralidade. João Pessoa não precisa escolher entre suas referências culturais para construir uma narrativa gastronômica forte. Sua força está justamente na capacidade de reunir diferentes conhecimentos e transformá-los em identidade. As matrizes africanas fazem parte dessa construção e acrescentam profundidade à maneira como a cidade pode falar de si mesma. Não como uma categoria isolada, mas como uma presença cultural que participa da riqueza gastronômica de um território marcado por encontros e criação.

Valorizar essa gastronomia significa, sobretudo, valorizar quem a mantém viva. Chef de cozinhas, famílias, comunidades, mestres da cultura, pesquisadores e empreendedores são parte essencial dessa história. O reconhecimento não pode ficar restrito ao prato ou ao ingrediente. Precisa alcançar as pessoas que detêm os conhecimentos e encontram maneiras de transmiti-los. Existe também aí uma dimensão econômica: quando a cultura gastronômica encontra oportunidades de trabalho, empreendedorismo, turismo e economia criativa, a valorização pode transformar reconhecimento simbólico em desenvolvimento. Para João Pessoa, investir nessa perspectiva significa compreender que cultura também pode gerar oportunidades sem perder sua identidade.
O futuro dessa gastronomia está justamente na possibilidade de diálogo entre tradição e contemporaneidade. As novas gerações não precisam escolher entre preservar e inovar. Podem receber os conhecimentos ancestrais, compreender seus significados e encontrar novas maneiras de expressá-los. Restaurantes, projetos gastronômicos, pesquisas, experiências culturais e iniciativas de turismo podem contribuir para essa circulação, desde que exista respeito às origens e protagonismo dos detentores dos saberes. João Pessoa tem condições de construir uma narrativa gastronômica contemporânea que não abandone suas raízes, mas as transforme em inspiração para o futuro.
No fim, talvez seja necessário mudar a pergunta que fazemos diante da comida. Em vez de perguntar apenas “qual é o sabor?”, João Pessoa pode perguntar também “qual conhecimento existe por trás dele?”. Essa pergunta abre uma cidade inteira. Revela que gastronomia é território, que saber é patrimônio, que ancestralidade é continuidade, que identidade nasce da pluralidade e que valorização começa pelo reconhecimento de quem constrói e preserva a cultura. Os saberes de matrizes africanas fazem parte dessa João Pessoa que cozinha, ensina, cria e compartilha. E é justamente à mesa, onde diferentes histórias encontram espaço para coexistir, que a capital paraibana pode oferecer ao Brasil e ao mundo uma das mais bonitas interpretações de si mesma: uma cidade cuja memória não está apenas escrita em suas ruas, mas também permanece viva nos saberes que continuam dando sabor ao seu futuro.
Coluna por Chef Marco Nascimento:

Gastrólogo e docente universitário, natural de Cacoal (RO), é bacharel em Gastronomia e possui formação em Cozinheiro Chef Internacional e Pâtissier pela UNIVALI (2018). É especialista em Didática do Ensino Superior (2019) e em Nutrição, Alimentação Saudável e Empreendedorismo pela PUC-RS (2022). Atua desde 2018 como professor e consultor na área de Alimentos e Bebidas (A&B), acumulando experiência na orientação e avaliação de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs), além da organização de eventos acadêmicos. Desde 2024, reside em João Pessoa (PB), onde leciona na UNINASSAU e cursa Biomedicina no Unipê

