Memórias que temperam a vida!

Por Polly Rocha | 25 07 2026

Acredito em uma gastronomia feita de amor, sabor e detalhes. Minha cozinha conta histórias, desperta sorrisos e acolhe a alma através do paladar. Valorizo o simples, às vezes me visto de luxo, e sempre revisito os clássicos.

A ressignificação faz parte da minha essência: ela chega à mesa dentro de uma lata, em um vidro simples ou envolta em um antigo papel de pão. Trouxe comigo tudo o que me emocionava do passado, e hoje construo uma cozinha profundamente baseada em memórias.

Sou de uma família da Zona da Mata canavieira de Pernambuco. Carrego raízes fincadas em dois mundos. De um lado, meus avós maternos, produtores de cana-de-açúcar, com um casarão de eiras e beiras, cercado de tradição e movimento.

Do outro, meus avós paternos, donos de uma “venda” no interior : daquelas com mortadelas penduradas, latas de sardinha empilhadas, mantas de charque sobre a mesa de madeira e uma geladeira vermelha repleta de refrescos de maçã, vendidos em garrafinhas de vidro de leite de coco.

Esse universo me fascinava. Eu amava atender os clientes, montar os embrulhos que, muitas vezes se desfaziam, porque eu insistia em usar durex nos grandes pacotes que meu avô preparava com barbante. Eles precisavam ser resistentes, afinal, seguiam na cabeça dos fregueses ou nos cestos dos cavalos rumo à zona rural.

Entre o vai e vem da venda e a fartura dos ingredientes, minha avó se dividia com maestria entre o comércio e o almoço da casa. Eu amava vê-la cozinhar!

Sua agilidade, sua presença, sua forma de fazer muitas coisas ao mesmo tempo.

O prato mais marcante que ela fazia era uma fritada inesquecível! uma espécie de omelete recheada com o que o dia oferecia: carne assada, mortadela ou charque.

Meu Deus… ainda sinto o cheiro desse prato.

Ela buscava os ovos na origem: o famoso quartinho das galinhas. Quebrava-os em um prato fundo de louça e os batia com um garfo, caminhando pela cozinha, falando sem parar como eu. E, sem fermento algum, aquela mistura crescia. Não era batedeira, era habilidade. Era amor.

A charque, recém-retirada da manta na venda, era desembrulhada, cortada, e ali a magia acontecia. Virava o recheio perfeito, junto com o coentro fresco colhido no quintal.

Eu esperava ansiosa o momento em que ela virava a fritada na frigideira sempre com precisão, nunca quebrava.

Fofa, dourada e deliciosa, eu saboreava aquele belezura com um guaraná champagne bem gelado. E, mesmo sem saber, eu já sentia: aquilo era poesia.

Eu só não imaginava que esse sentimento se tornaria minha profissão, a força que move meu coração e impulsiona minhas conquistas.

A gastronomia é a minha vida. E as minhas memórias… são o tempero dela.

Coluna por Polly Rocha

Especialista em gastronomia regional brasileira, a Chef Pollyne Rocha cria uma culinária fresca, de poucos ingredientes, com foco em cozinha de mar e recheada de memórias afetivas com “bereguedê” brasileiro. Sua trajetória inclui experiência na Holanda e estágios na Europa (como no restaurante Michelin Eleven). Ela é a Chef proprietária do Atelier Roti e do Piccolo, além de consultora e professora de gastronomia há 12 anos. Foi destaque na revista Prazeres da Mesa e será colaboradora no próximo livro de Roberta Malta.

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