Jampa Gastronomia

Um ano da primeira revista de jornalismo gastronômico paraibana

O doce prazer de não fazer nada!

Por Polly Rocha | 14.08.2026

Acabo de voltar de dias lindos na Sicília e, entre taças de vinho, banhos de mar, massas, passeios de barco e alguns bons quilos a mais na bagagem e talvez em mim, também trouxe uma das lições mais bonitas da viagem:

Os italianos sabem viver.

Já ouviram falar em Dolce Far Niente?

Significa “o doce prazer de não fazer nada”.

E, minha gente… eles levam isso muito a sério.
Ou melhor: levam muito sem pressa.

O que mais me encantou foi perceber a relação que eles têm com o tempo. Não é sobre fazer menos. É sobre estar mais.

Estar no café.
Estar no banho de mar.
Estar diante de uma paisagem bonita sem sentir a obrigação de fotografá-la de quinze ângulos diferentes.
Estar numa conversa que começou por acaso na feira e que ninguém sabe,nem precisa saber que horas vai terminar.

É tomar um café sem pressa.
Parar simplesmente porque a vista está bonita.
Sentar para ver o mar sem precisar fazer absolutamente nada com aquela informação.

São momentos que talvez não sirvam para nada.

E talvez justamente por isso sirvam para tudo.

Os italianos não descobriram nenhuma fórmula milagrosa para a felicidade. Eles apenas continuam vivendo uma coisa que, para nós, anda cada vez mais rara:

o presente.

E eu voltei pensando que talvez nossas pausas precisem voltar a ser pausas de verdade.

Corpo e mente no mesmo lugar.

Sem esperar a próxima notificação.
Sem olhar o celular a cada três minutos.
Deixando a bateria descarregar sem entrar em desespero e, quem sabe, deixando a gente mesmo recarregar.

Talvez seja essa uma das sabedorias mais bonitas que eles conseguiram preservar de geração em geração.

Vi corpos com as marcas do tempo, bronzeados num estilo Armani sem nunca terem pedido licença ao filtro do Instagram. Pessoas felizes com o que têm, conversando alto, comendo bem, brindando com amigos e, cinco minutos depois, brindando com desconhecidos que já viraram amigos também.

Como o nosso Ricardo.

Aos 72 anos, comandante do nosso barco, ele vibrava cada mergulho, cada música, cada brinde e cada paisagem conosco como se aquele fosse o primeiro ou o último dia bonito da vida.

E talvez ele soubesse de alguma coisa que a gente esqueceu.

Os italianos apenas preservaram um jeito lindo de viver que nós, em algum momento, deixamos escapar entre a pressa, os compromissos, as notificações e essa necessidade quase doida de transformar cada minuto em algo “produtivo”.

Como se descansar fosse perder tempo.
Como se contemplar fosse preguiça.
Como se não fazer nada fosse… nada.

Não é.

Dolce Far Niente talvez seja justamente o contrário.

É entender que nem todo minuto da vida precisa produzir alguma coisa.

Alguns minutos só precisam produzir memória.

Porque, no fim, a vida nem sempre acontece nos grandes acontecimentos, nas viagens inesquecíveis ou nos momentos extraordinários.

Muitas vezes, ela acontece justamente ali…

nos intervalos do ordinário.

E que, estranhamente, depois vira exatamente aquilo de que sentimos mais saudade.

Dolce Far Niente.

Talvez o verdadeiro luxo nunca tenha sido ter mais tempo.

Talvez seja simplesmente ter tempo e estar inteiro dentro dele.

Coluna Por Polly Rocha

Especialista em gastronomia regional brasileira, a Chef Pollyne Rocha cria uma culinária fresca, de poucos ingredientes, com foco em cozinha de mar e recheada de memórias afetivas com “bereguedê” brasileiro. Sua trajetória inclui experiência na Holanda e estágios na Europa (como no restaurante Michelin Eleven). Ela é a Chef proprietária do Atelier Roti e do Piccolo, além de consultora e professora de gastronomia há 12 anos. Foi destaque na revista Prazeres da Mesa e será colaboradora no próximo livro de Roberta Malta.

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