Chupando caju e torrando a castanha!

Por Polly Rocha | 01/07/2026

Quanto tempo nós, nordestinos, tivemos que nos posicionar em meio ao caos do preconceito e à falta de informação de tantos brasileiros?

Quantas vezes tivemos que explicar que Norte não é Nordeste em meio a piadas sobre o nosso jeito “engraçado” de falar?

Quantas vezes precisamos afirmar que foi do Nordeste que saíram grandes gênios da nossa música, literatura, gastronomia e arte brasileira?

Como o preconceito pode ditar uma era?

Hoje, as maiores notas do ENEM são de nordestinos. Exportamos não só renda renascença e design, mas também pesquisa e tecnologia .
Chega de retratar o nordestino com o bronze cor de barro nas novelas.

Respeita os paraíbas, rapaz!

Nada do que vivemos nesse processo silencioso de autoafirmação tirou o nosso brilho, o nosso culto às artes ou o nosso fôlego de resistência diante de uma sociedade adoecida pelo preconceito.

Enquanto achavam que a gente só chupava o caju, a gente já estava torrando a castanha.

Torrar as castanhas sempre foi, para nós, colocar no tacho do mundo aquilo que temos de melhor.

Quando achavam que estávamos suspensos em um pé de caju, estávamos lendo Simone de Beauvoir e Pierre Bourdieu.

Mas, na verdade, a gente já estava com esse doce no fogo fazia tempo … esperando a hora certa de entregá-lo pronto.

Hoje, o doce está pronto e está sendo vendido mundo afora como sinônimo de resistência, legado cultural e fé em nós mesmos.

Nunca foi sobre o caju,sempre foi sobre a castanha que torramos, por todos esses anos, nos terreiros da criatividade de todo o Nordeste, bem quietinhos.

Agora, mandamos sinais de fumaça e o cheiro da torra para o mundo, mostrando que nem sempre o mais importante é chupar o caju, mas vender a castanha.

Coluna por Polly Rocha

Especialista em gastronomia regional brasileira, a Chef Pollyne Rocha cria uma culinária fresca, de poucos ingredientes, com foco em cozinha de mar e recheada de memórias afetivas com “bereguedê” brasileiro. Sua trajetória inclui experiência na Holanda e estágios na Europa (como no restaurante Michelin Eleven). Ela é a Chef proprietária do Atelier Roti e do Piccolo, além de consultora e professora de gastronomia há 12 anos. Foi destaque na revista Prazeres da Mesa e será colaboradora no próximo livro de Roberta Malta.