A relação do chef Rodrigo com a gastronomia começou muito antes da cozinha profissional. Ainda na infância, nos finais de semana passados no sítio dos avós, ele descobriu que uma refeição poderia representar muito mais do que simplesmente comer. Era um momento de encontro, memória, afeto e, principalmente, de sabores.
No centro dessas lembranças está a avó Céu, responsável por preparar verdadeiros banquetes de comida nordestina, com fartura e um tempero que, segundo Rodrigo, era reconhecido por toda a região. A cozinha do sítio também ajudou a construir seu imaginário gastronômico: um espaço tipicamente sertanejo, equipado com fogão a lenha, pote d’água, varal de fumeiro, panelas de barro e caldeirões de ferro fundido.
“Tudo isso me gerou um despertamento para tudo o que se podia ser feito dentro de uma cozinha, ou melhor, a partir dela”, relembra.
Os rituais também faziam parte desse aprendizado. Abater e limpar animais, debulhar feijão, ralar milho e moer café eram atividades que despertavam a curiosidade do futuro chef. Com o passar dos anos, o interesse se transformou em paixão. Rodrigo aprendeu a cozinhar cedo, passou a experimentar novos sabores, aromas e texturas e transformou os familiares em seus primeiros “avaliadores” das combinações que criava.
A gastronomia, porém, demorou a se tornar profissão. Já adulto, casado e com um emprego administrativo estável, ele decidiu cursar Gastronomia em uma faculdade de João Pessoa. A intenção inicial era apenas aprimorar um hobby. O caminho, no entanto, tomou outro rumo.

“Bastou alguns anos, contatos e reviravoltas, lá estava eu, dando consultorias e ingressando dentro da cozinha profissional”, conta.
Da gestão à cozinha profissional
A trajetória de Rodrigo foi construída a partir de experiências distintas. Antes mesmo de ingressar profissionalmente na gastronomia, o trabalho administrativo contribuiu para sua formação, principalmente nos campos de gestão de pessoas e processos.
A formação acadêmica trouxe o conhecimento técnico e uma rede de contatos que abriu portas para as primeiras consultorias. Depois vieram experiências em diferentes formatos de estabelecimentos, como hamburguerias, cafés, bistrôs, gastrobares e restaurantes de alta cozinha.
O empreendedorismo também fez parte dessa caminhada e ampliou sua visão sobre o funcionamento do setor. Para ele, cada etapa trouxe algum aprendizado importante, mas é o momento atual que considera especialmente significativo.
Hoje, Rodrigo está envolvido em um projeto que busca fortalecer a gastronomia no Centro Histórico de João Pessoa, região que, segundo ele, ainda possui potencial para conquistar maior projeção no setor.
A proposta vai além de comandar uma cozinha. Envolve desenvolver uma estrutura comercial, formar uma equipe e contribuir para que o território também seja reconhecido como espaço de gastronomia.
Quando a cozinha exige escolhas
Por trás da carreira, entretanto, existe um desafio que não aparece nos cardápios: encontrar equilíbrio entre a vida profissional e a pessoal.
Rodrigo considera que conciliar as demandas da cozinha com a família foi o maior desafio de sua trajetória. A rotina profissional, marcada por longas jornadas, intensidade e pressão, muitas vezes entra em conflito com outras prioridades.
“Digo sempre que minhas prioridades de vida são, respectivamente: Deus, Família, Saúde e, depois, Trabalho”, afirma.
Para conseguir preservar essa ordem, o chef precisou estabelecer limites e parâmetros pessoais. Algumas oportunidades profissionais foram deixadas de lado nesse processo, mas, em contrapartida, ele encontrou uma forma de conciliar carreira e vida pessoal.
Um novo capítulo em Tortlas
É nesse contexto que surge sua atual experiência na Tortlas. Rodrigo chegou ao estabelecimento inicialmente como consultor, com a missão de estruturar a chamada “cozinha quente”, que ainda estava em fase inicial de desenvolvimento.
A Tortlas já possuía uma confeitaria tradicional e consolidada, mas havia o projeto de ampliar sua atuação e se estabelecer também como um bistrô de referência no Centro Histórico.
Após três meses de consultoria e avanços na estruturação do projeto, veio o convite para assumir definitivamente a chefia da cozinha.
Hoje, Rodrigo é responsável pela assinatura do cardápio e participa diretamente das decisões que podem contribuir para transformar o projeto em realidade.
Uma cozinha sem fronteiras
Definir a cozinha de Rodrigo em apenas um estilo não é uma tarefa simples — e ele próprio prefere não fazer isso.
Sua identidade começa pela Paraíba e pelo Nordeste, mas não termina ali. A cozinha sertaneja, os sabores do litoral e as referências amazônicas fazem parte de seu repertório, ao lado de influências italianas, mediterrâneas e orientais.
Para o chef, existe liberdade tanto para preservar receitas tradicionais quanto para criar novas interpretações.
Essa combinação entre memória e experimentação permite que ingredientes, técnicas e referências diferentes convivam no mesmo trabalho, sem que a identidade brasileira seja deixada de lado.
O divisor de águas
Entre tantas experiências, Rodrigo aponta sua passagem pelo Moman Restaurant como um divisor de águas na carreira.
Foi ali que teve a oportunidade de liderar uma equipe com mais de 25 profissionais, trabalhar com uma grande estrutura de produção e atuar na realização de buffets para eventos corporativos e casamentos.
A experiência também ampliou sua visibilidade e seu network dentro do cenário gastronômico local.
Mais do que o tamanho da operação, porém, a trajetória parece ter reforçado uma característica que acompanha Rodrigo desde os primeiros contatos com a cozinha: o desejo de transformar a gastronomia em uma ferramenta de conexão.
Quando olha para o futuro, ele não fala em grandes títulos ou em uma lista de conquistas grandiosas. Seus objetivos estão ligados ao desenvolvimento pessoal e profissional e à possibilidade de fazer diferença na vida de outras pessoas.
“Meus sonhos como chef são os mesmos do Rodrigo, pessoa física. Me desenvolver cada dia mais naquilo que amo, concluir/atingir meus objetivos e metas, e tentar fazer a diferença na vida do próximo, seja através de um prato ou, quem sabe, de um aperto de mãos!”

Entre a cozinha de fogão a lenha da avó Céu e os desafios de comandar uma cozinha profissional no Centro Histórico de João Pessoa, Rodrigo construiu uma trajetória marcada por memória, técnica, escolhas e afeto. Uma história que mostra que, para alguns chefs, cozinhar começa muito antes da profissão: começa na mesa, na família e nos sabores que permanecem na lembrança.

