Há um velho hábito brasileiro que resiste ao tempo, às tecnologias e às mudanças de geração: assistir ao futebol reunido em torno de uma mesa. Pode ser em casa, no bar da esquina ou em um restaurante à beira-mar. Antes do apito inicial, já existe um ritual estabelecido: a cerveja chega primeiro, os petiscos começam a circular, alguém faz seu palpite para o placar e, quase sem perceber, a gastronomia assume o protagonismo da partida.
É curioso como, durante a Copa do Mundo, os olhos estão voltados para os gramados, enquanto os melhores momentos acontecem, muitas vezes, dentro das cozinhas. Em João Pessoa, essa percepção nunca foi tão evidente.
A cidade vive uma transformação silenciosa, porém consistente. Se antes era reconhecida quase exclusivamente por suas praias e qualidade de vida, hoje consolida uma identidade gastronômica que atrai turistas, movimenta a economia e desperta o interesse de chefs, críticos e viajantes em busca de experiências autênticas. A boa mesa deixou de ser um complemento da viagem; tornou-se um dos principais motivos para visitar a capital paraibana.
É justamente por isso que, durante a Copa, a pergunta mais interessante já não é “onde assistir ao jogo?“, mas “onde viver a melhor experiência gastronômica enquanto a bola rola?”.
Os estabelecimentos entenderam que um telão, sozinho, já não basta. O público procura ambientes acolhedores, serviço de qualidade, boa música, conforto e, acima de tudo, comida capaz de criar memórias. A partida dura noventa minutos; uma experiência gastronômica marcante permanece por muito mais tempo.
Essa mudança elevou o padrão da hospitalidade local.
Hoje, bares e restaurantes competem menos pelo tamanho da televisão e mais pela criatividade da cozinha. Enquanto alguns apostam em receitas tradicionais que valorizam a carne de sol, o rubacão, a macaxeira e os frutos do mar do litoral paraibano, outros investem em releituras contemporâneas, drinques autorais e menus especiais inspirados no clima da competição.
O resultado é uma cidade que consegue transformar um simples jogo de futebol em um encontro entre cultura, turismo e identidade regional.
Há outro aspecto que merece atenção.
Quando falamos sobre gastronomia durante a Copa, é comum pensar apenas no prato que chega à mesa. No entanto, existe uma cadeia inteira trabalhando para que essa experiência aconteça. O pescador que saiu antes do amanhecer, o agricultor que cultiva ingredientes frescos, o pequeno produtor que fornece queijos artesanais, o cozinheiro que aperfeiçoa técnicas e o garçom que atende centenas de clientes durante uma única partida também fazem parte desse espetáculo.
Cada gol comemorado movimenta uma economia que raramente aparece nas transmissões esportivas. E talvez esteja aí a maior vitória da gastronomia pessoense.
Ela conseguiu transformar ingredientes regionais em patrimônio cultural, hospitalidade em diferencial competitivo e experiências gastronômicas em uma poderosa ferramenta de promoção turística. Quem visita João Pessoa para acompanhar um grande evento esportivo dificilmente volta para casa lembrando apenas do resultado da partida. Volta falando da carne de sol perfeitamente preparada, do camarão fresco, do polvo grelhado, do rubacão fumegante, petiscos, da cerveja servida na temperatura ideal e da acolhida que encontrou à mesa.
É uma lembrança construída pelos sentidos.
No fim das contas, campeões levantam taças, jogadores entram para a história e os resultados acabam ocupando apenas algumas linhas nos livros de estatísticas. Já os sabores permanecem na memória afetiva.
Talvez por isso a Copa do Mundo tenha tanto a ver com gastronomia.
Ambas despertam paixões, aproximam pessoas, criam tradições e nos lembram de que os melhores momentos da vida quase sempre acontecem ao redor de uma mesa compartilhada.
Na capital paraibana, enquanto a bola percorre o gramado, há outro espetáculo acontecendo menos barulhento, mas igualmente grandioso. Ele nasce do fogo das cozinhas, da criatividade dos chefs, da dedicação dos produtores locais e da capacidade que João Pessoa desenvolveu de receber bem quem chega.
Porque, no fim, o placar muda.
O sabor permanece.
Coluna por Chef Marco Nascimento

Gastrólogo e docente universitário, natural de Cacoal (RO), é bacharel em Gastronomia e possui formação em Cozinheiro Chef Internacional e Pâtissier pela UNIVALI (2018). É especialista em Didática do Ensino Superior (2019) e em Nutrição, Alimentação Saudável e Empreendedorismo pela PUC-RS (2022). Atua desde 2018 como professor e consultor na área de Alimentos e Bebidas (A&B), acumulando experiência na orientação e avaliação de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs), além da organização de eventos acadêmicos. Desde 2024, reside em João Pessoa (PB), onde leciona na UNINASSAU e cursa Biomedicina na UNIPÊ.

