O bartender e chef de bares do HCM Hotel, Jonatas Henrique, é semifinalista da Campari Bartender Competition (CBC), uma das principais disputas de coquetelaria do país. Com criações que unem técnica, identidade cultural e referências nordestinas, o profissional se destaca entre competidores de todo o Brasil e segue avançando na competição.
Para Jonatas, participar de competições vai muito além de disputar um título. “Qualquer competição de coquetelaria já é, por si só, uma ideia muito bacana, porque traz desafio, inovação e troca. É uma forma de sair da zona de conforto, conhecer outros profissionais e se testar como bartender”, afirma.
Uma mudança de rota
A relação com desafios, segundo ele, vem de muito antes do balcão. “Desde criança, talvez pela influência do taekwondo, eu sempre gostei de competir, de me desafiar constantemente”.
A mudança de vida aconteceu há cerca de três anos, quando decidiu abandonar a graduação em Física pela Universidade Federal da Paraíba para se dedicar integralmente à coquetelaria. “Eu já estava no final do curso, escrevendo o TCC, e larguei tudo para viver de bar. Foi uma mudança maluca, mas que hoje faz todo sentido dentro da minha jornada”.
Antes da atual competição, Jonatas já havia participado de outras disputas nacionais, como o Brasil Cachaça. Em 2023, foi finalista com o drink “Acayu”, à base de caju. Já em 2024, conquistou o voto popular com o coquetel “Kari´boka\”, inspirado no foguete de caboclinhos.
Coquetelaria como narrativa cultural
Nesta edição da competição, que tem como tema “jornada latina”, Jonatas decidiu transformar sua própria história em narrativa líquida. “Eu sempre enxerguei minha rotina no bar como uma jornada. Então quis que meus coquetéis também fossem isso: um caminho, uma travessia”, explica.
O primeiro desafio resultou no drink “Capibaribe”, inspirado no rio pernambucano que atravessa diferentes paisagens até chegar ao mar. Já na etapa seguinte, o bartender foi além dos ingredientes e mergulhou na construção de significado.
“O desafio não é só criar uma bebida, mas entender o que cada insumo representa, que história você quer contar, que memória quer provocar. Cada drink tem uma ocasião, uma necessidade, às vezes até psicológica”, destaca.
O “Manguetown” e a força do mangue
Foi com o coquetel “Manguetown” que Jonatas garantiu vaga na semifinal. A criação é inspirada no movimento Manguebeat e na relação entre cidade, natureza e identidade cultural nordestina.
“O mangue é um ecossistema extremamente rico, mas pouco valorizado. Quis trazer essa consciência ambiental e também um olhar crítico sobre o apagamento dos biomas nas cidades”, explica.
A construção do drink envolve técnica, ciência e simbolismo. Com fermentação de jaca, infusão de pimentão amarelo com vermute, tintura de cúrcuma e malvarisco e uma diluição acidificada com vinagre de vinho branco, o coquetel entrega notas de umami, amargor e frescor.
A apresentação também é parte essencial da experiência: dois copos (um de cerâmica, representando as raízes, e outro de vidro, simbolizando o urbano) compõem a peça inspirada na proporção áurea. “É um ecossistema. O líquido e a guarnição se complementam e convidam a uma experiência cíclica”, detalha.
Na guarnição, o reaproveitamento integral da jaca reforça o conceito de coquetelaria sustentável, ou “zero waste”. “Uso desde o bago até o caroço, transformando em geleia, creme e uma farofa crocante. É uma forma de respeitar o ingrediente e reduzir desperdícios”.
Influências nordestinas e autenticidade
Natural de Primavera, em Pernambuco, Jonatas carrega referências da infância em suas criações. “Muito do que faço vem de receitas que vi minha avó e minhas tias preparando, como doces e garrafadas. Isso tudo faz parte da minha identidade”, afirma.
Para ele, a autenticidade foi essencial para chegar à semifinal. “Não pensei em agradar um padrão internacional. Pensei em valorizar o Nordeste, a Paraíba, Pernambuco. Cultura é algo cotidiano, está na feira, na esquina, na praia. É isso que eu quis traduzir no meu trabalho.”
Construção coletiva
Apesar do destaque individual, Jonatas faz questão de reforçar que sua conquista é coletiva. “Não foi uma vitória solitária. Cheguei até aqui graças a muitas pessoas que acreditaram em mim, que me apoiaram, que estiveram presentes nos momentos difíceis.”
Ele cita amigos, colegas e parceiros que contribuíram diretamente no processo criativo, além do filmmaker responsável pelos vídeos da competição. “Foi tudo construído em troca, em conversa, em mesa de bar. É sobre compartilhar para depois brindar junto.”
Próximos passos
Na atual edição da Campari Bartender Competition (CBC), Jonatas Henrique avançou até a semifinal após se destacar entre bartenders de todo o país com criações que aliam técnica, narrativa e identidade cultural. A competição, uma das mais relevantes da coquetelaria nacional, oferece ao vencedor um prêmio de R$ 20 mil, além da oportunidade de representar o Brasil na etapa latino-americana e a possibilidade de firmar contrato como embaixador da marca por um ano.
Para o bartender, mais importante que o resultado final é o processo. “A competição valoriza a profissão, revela talentos e fortalece a cultura da coquetelaria no Brasil. É uma experiência única. Só entende de verdade quem vive.”
E é com essa mistura de técnica, história e identidade que Jonatas Henrique segue transformando o bar em palco e o drink, em narrativa.

