No alto da Serra da Borborema, em Areia (PB), está um dos destinos mais visitados pelos amantes da cachaça: o Engenho Triunfo. Mais do que uma fábrica de cachaça, o espaço se tornou um verdadeiro parque gastronômico e cultural, fruto da paixão e persistência do casal Antônio Augusto e Maria Júlia Baracho, que transformaram um sonho em símbolo de identidade paraibana.
O início de uma receita de sucesso
Ainda no namoro, Antônio Augusto dizia a Maria Júlia que queria produzir a melhor cachaça de Areia. O que parecia apenas um sonho virou um projeto de vida: juntos, começaram a estruturar o Engenho, enfrentando o preconceito em torno da bebida e a desconfiança do mercado.
Com estudo e dedicação, eles foram refinando a produção até chegar a uma cachaça reconhecida pelo sabor e qualidade, conquistando medalhas nacionais e internacionais. Hoje, a Cachaça Triunfo é referência e figura entre as mais premiadas do Brasil.
Família que fermenta unida
Para Maria Júlia, um dos momentos mais marcantes foi ver os filhos abraçando o negócio da família e escolhendo cursos que dialogassem diretamente com a produção.
“Foram muitos momentos marcantes, mas a gente não esquece quando os nossos filhos começaram a ir para a universidade e escolheram cursos para dar a continuidade da nossa história e até para produzir melhor a cachaça. (…) Isso foi bem marcante, porque a gente ficou feliz de que eles queriam dar continuidade aos nossos sonhos, porque de certo uma coisa a gente tem: é que os nossos filhos não serão herdeiros, porque eles construíram o nosso patrimônio juntos”, destaca.
Essa união fortaleceu a empresa e ampliou sua presença no mercado, com reconhecimento não só pelas medalhas recebidas, mas também pelo impacto na cadeia produtiva da região.
A cachaça como símbolo
Maria Júlia ressalta que a Cachaça Triunfo carrega algo além de técnica e tradição:
“O diferencial dessa cachaça é que ela tem um gosto de empresa familiar, um gosto de história de amor, de luta, de superação, e que a gente está sempre inovando, sempre criando, sempre inventando novas coisas, porque essa é a nossa elo maior entre a família: fazer com que a cachaça seja triunfo, chegue na mesa das outras famílias, carregando todo o amor que a gente deposita em criar esse destilado genuinamente brasileiro”.
O incêndio e a superação
Em março de 2024, um incêndio atingiu as instalações do Engenho Triunfo. O episódio mobilizou a cidade de Areia, parceiros e até pessoas de outros estados e países.
“Foi muito difícil, mas com a saúde que a gente tem e o apoio de todos conseguimos superar. (…) Com sete dias nós reabrimos nossas portas, porque o turismo tanto impacta positivamente como negativamente. As pessoas da minha cidade não só mandaram flores para que eu recuperasse rapidamente o paisagismo, mas também vieram plantar junto comigo. Esse memorial é para ficar firmado que vale a pena, nesta vida, estudar, trabalhar, gastar menos do que se ganha e em tudo colocar uma grande dose de amor. A história da Triunfo é uma história de amor, de luta e de superação”, relembra Maria Júlia.
Gastronomia e identidade paraibana
A sócia-fundadora também valoriza o papel da cachaça no turismo e na gastronomia da Paraíba.
“Sim, acredito que os números, as ciências, as estatísticas mostram muito bem isso. Eu sou socióloga, sabia do estigma negativo com a cachaça e, se hoje a Paraíba é um dos estados que menos tem preconceito com nossa bebida genuinamente brasileira, é porque montamos estratégias para isso. Uma delas foi a Noite de Degustação da Cachaça Triunfo, mostrando que a cachaça pode ser um atrativo turístico, uma mola mestra de economia criativa e de impulsionador de desenvolvimento local”.
Ela explica ainda que o diferencial da bebida está nas formas de envelhecimento e na qualidade da base:
“O diferencial da cachaça se dá em três modalidades: o tonel da madeira onde vai ser descansada, o tamanho desse tonel e o tempo. (…) Para que uma cachaça envelhecida seja boa, é preciso que a tradicional, a branquinha, esteja de excelente qualidade”.
O amor como força motriz
Além da força econômica, a cachaça Triunfo simboliza valores que vão além do copo.
“Fico muito feliz que a Cachaça Triunfo seja símbolo para a Paraíba. (…) Ando esse Brasil inteiro para dizer ao mundo que na Paraíba, homem que deseja ter sucesso não pode estar nem à frente, nem atrás de sua companheira. Ele tem que estar do lado e de mãos dadas. E a Cachaça Triunfo é a prova disso: de que o amor supera tudo, de que o amor é o grande vencedor e de que o amor é a única força capaz de transformar o mundo”.
Turismo de experiência
Ao abrir as portas do engenho à visitação, Maria Júlia também ajudou a transformar Areia em destino turístico gastronômico e cultural.
“Até 2006, Areia produzia riqueza tão somente com a cana-de-açúcar para vender às usinas do litoral. (…) Quando me determinei a abrir um engenho para a visitação, eu nem entendia que estava colocando um pé para o turismo de experiência, mas eu sabia que tinha que dar certo. E deu. Hoje nós somos um destino turístico responsável, sustentável e regenerativo. É o turismo que transforma vidas”.
Reconhecimento internacional
O impacto do Engenho Triunfo já ultrapassou fronteiras.
“Em 2023, o Parque Engenho Triunfo foi contemplado com o melhor atrativo turístico do mundo pela Organização Mundial de Jornalistas de Turismo. Foi inesquecível para mim segurar a bandeira do Brasil em outro país e levar o nome da nossa pequena Areia. Fora isso, tenho palestrado em eventos nacionais e internacionais mostrando que a cachaça é, sem dúvida, uma mola propulsora do desenvolvimento local e regional”.
Mais do que uma cachaça premiada, o Engenho Triunfo é uma história de família, gastronomia e superação, que transformou Areia em destino obrigatório no mapa da boa mesa brasileira.

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